segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Resultado do solo vivo da comunidade CEIVAS



















Colheitas e pragas, a resposta estará nos venenos?
José A. Lutzenberger in “O Futuro Roubado”
(Our Stolen Future/1996)

A agricultura convencional, chamada moderna, olha os fatores que influenciam a produção, tais como solo, lavração e preparo do solo, adubação, pragas e controle de pragas, concorrência das pragas invasoras ou a seleção genética das variedades cultivadas, etc., de maneira meramente analítica ou reducionista. Cada fator é encarado independentemente dos demais, como se ele se encontrasse sozinho numa caixa ou gaveta fechada.
As pragas são vistas como inimigos arbitrários que podem causar danos graves ou destruir completamente uma lavoura e sempre que possível devem ser erradicadas.
Foi desenvolvido, assim, todo um arsenal de biocidas fulminantes e persistentes, os agrotóxicos: inseticidas, acaricidas, nematicidas, fumigantes, fungicidas, bactericidas, até rodenticidas e molusquicidas e outros pesticidas. O agricultor só precisa seguir à risca as instruções, aplicar preventivamente o veneno no momento certo, sem ter que constatar se há ou não incidência de praga. Assim ele estará acabando com todos os tipos de praga.
Neste caso, a função do solo seria apenas ancorar as plantas e veicular nutrientes solúveis, não importando, realmente se ele está habitado por seres vivos – por minhocas, artrópodos e outros animaizinhos, especialmente colêmbolas e protozoários ou por fungos, algas, bactérias.
As gigantescas corporações do negócio dos agrotóxicos já compraram quase todas as companhias de produção de sementes. Elas querem monopolizar os bancos genéticos para controlar a seleção de maneira a poder promover somente variedades que dão resposta máxima a seus insumos químicos. Estas, são semente peletizadas, recobertas de adubo químico, de fungicida, de inseticidas e, até um herbicida total para o qual a respectiva variedade da semente é resistente. Não mais resistência a pragas, resistência ao agrotóxico. Esta semente peletizada escapa completamente do controle do agricultor, que foi quem, no passado, por seleção consciente ou empiricamente inconsciente, criou a fantástica diversidade biológica dos cultivos nas tradicionais culturas camponesas.
Mas uma minoria crescente de agricultores e técnicos em agricultura começa a ver as coisas de uma perspectiva diferente. Eles raciocinam não em termos reducionistas, mas holísticos. Para eles, tudo está ligado com tudo. Não conseguem ver inimigo arbitrário no parasita. Tampouco querem exterminá-lo. Sabem que um processo tão vetusto como é a Evolução Orgânica, mais de três e meio bilhões de anos, não pode produzir espécies erradas, que nem deveriam existir.
Não há espécie vegetal ou animal que não tenha seus parasitas e eles existem há milhões de anos. Se isto acontece é porque o parasita não tem condições de prosperar sobre hospedeiro são. Ele só prospera sobre o que está de alguma forma em situação marginal. Em um ecossistema intato, toda população, de seja qual for a espécie, sempre tem seus indivíduos doentes, fracos, feridos, desequilibrados. É em cima destes indivíduos que o parasita prospera, sem jamais exterminar toda a população da espécie hospedeira. Ele é um dos crivos do mecanismo de seleção natural, que tende a melhorar constantemente as espécies.
Os camponeses tradicionais, com sua sabedoria ancestral, sabiam que a praga não ataca a não ser as plantas que não estão bem equilibradas. Por isso, eles procuravam obter cultivos sãos através de um manejo adequado do solo, o que incluía descanso da terra, compostagem de resíduos vegetais e animais, adubação verde, adubação foliar, cobertura morta, rotação de cultivos, plantas companheiras e outras práticas.
Só raras vezes os agricultores biológicos modernos combatem as pragas diretamente, e o fazem usando defensivos naturais, não tóxicos, como cinza, talcos de rochas, extratos herbais, caldos biológicos como soro de leite, chorume de biogás.
De acordo com Chaboussou, os parasitas, quer se trate de insetos, ácaros, nematóides, protozoários, fungos, bactérias ou mesmo vírus, só podem proliferar em plantas com desequilíbrio metabólico que leve a níveis exagerados de nutrientes na seiva. Numa planta sã estes níveis são baixos.
Quando degradamos a estrutura do solo pela excessiva agressão mecânica, causamos erosão e perda de húmus, destruímos a vida do solo pela agressão química, e eliminamos o alimento da microvida do solo.
A maioria das plantas vive em simbiose com outros organismos no solo. A ponta da raiz capilar, a última extensão da raiz, já quase microscópica em diâmetro, exuda uma substância gelatinosa chamada mucigel, com a qual se recobre como se fosse uma luva. Nesta capa constituída de alimentos energéticos, açúcares e amidos, instalam-se bactérias especiais. Esta capa é atravessada por filamentos que se extendem por vários metros além da ponta da raiz e podem unir-se ao micélio que serve à planta vizinha da mesma espécie.
Esta simbiose tripartita – planta, bactéria e fungo, a que damos o nome micorriza, consegue retirar nutrientes minerais até da estrutura cristalina da rocha, isto é, de cacos de pedra e grãos de areia ou de concreções minerais.
Mas a micorriza só funciona em solo vivo, rico em húmus. Não mais precisamos entrar em detalhes sobre como os métodos da agricultura moderna destroem a micorriza – em proveito da indústria química...
Outra simbiose importante é o rizóbio. As leguminosas albergam em nódulos especiais que produzem em suas raízes determinadas bactérias que fixam para elas nitrogênio do ar.
Portanto, se a planta estiver bem equilibrada, a praga não vingará.


Como podemos perceber, a indústria química domina também o setor do agrobusiness, impondo tanto aos grandes agricultores, como aos pequenos, que os agrotóxicos são essenciais para uma boa colheita.
Com isso, o solo que é a mãe geradora dos nossos alimentos, está morrendo, está produzindo alimentos envenenados. Alimentos esses que acabam interferindo no metabolismo químico dos seres que deles se alimentam, alterando comportamentos.
Precisamos manter o solo da nossa comunidade vivo, rico em húmus. Podemos fazê-lo, dialogando com a mãe terra e usando a sabedoria dos nossos antepassados que conheciam o valor do solo vivo.

Compilação e comentário: Iara Cadore Casett

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